A este novo livro de poemas chamei-lhe “dos Afectos”, deverá ser lido
e entendido como a continuação e o fecho do ciclo caminhos, os meus
caminhos, um período de mais de quarenta anos. Enquanto nos “Longos
Caminhos” sou eu que caminho, neste são as pessoas, algumas das pessoas
com quem ao longo do tempo me relacionei, sempre as pessoas, elas é que
determinam tudo: lutas, amores, vivências, quotidiano, realidade, sonho,
imaginação.
Regressei ao ponto de partida, ao longínquo 1973, revisitei parte da
juventude, dessa alegre e divertida juventude, desses tempos no Alentejo.
Depois outros foram os caminhos, a cidade grande onde podemos ter
muita gente ao nosso redor e sentirmo-nos muitas vezes sós.
“dos Afectos”, é de todos os afectos, dos amores, da luta, da paixão,
da dança, da música, da amiga ou do amigo, do prazer de viver ou do
desgosto de uma partida. Mas, também é da mudança, somos eterna
e permanente mudança, mesmo que não queiramos. Sonhamos
e vamos muitas vezes atrás dele – o sonho, até transformá-lo em
realidade, procurando novos portos de abrigo, que darão lugar a novas
interrogações, dúvidas, angústias e demandas, realizações, amores,
amizades e sonhos.
O autor
PREFÁCIO
Higino Poeta da Vida
Dia Mundial da Paz,
Hoje,
Mas qual paz?
Quando a nosso lado
Centenas de mulheres
São mortas
Em suas casas,
Nos seus leitos,
Nas suas cozinhas...
Higino Maroto
Quando conheci o Higino ele era o
responsável, não sei se dono, de uma gráfica de nome Gráfis. O
Higino sabia, era camarada de camaradas e isso bastava-me para ser
aquela a tipografia onde tentaríamos fazer o maior número de
trabalhos possível. Recebemos daquele homem afável e bem disposto
nessa altura ainda rapaz, a melhor colaboração, a maior
disponibilidade, a garantia de que os trabalhos por atrasados que
pudessem ser entregues, estariam prontos a horas e tinham a melhor
qualidade a que aspirávamos. A Barraca fez com ele os seus
melhores e mais saudosos programas , livros, cartazes, panfletos.
Sempre a mão do gráfico, mesmo noite dentro, se disponibilizava
para a ajuda indispensável. E o “maroto” nunca nos disse que era
poeta. Que, quem sabe, a sua disponibilidade para connosco derivava
do seu gosto pela arte, mais concretamente pela escrita.
Que estranha noticia. Tantas noites e
dias à volta de papéis escritos por outros, de textos sem fim sobre
obras e autores e aquele amigo, porque não podíamos duvidar que o
era nunca nos tocou na sua própria vocação.
O Higino Maroto é um poeta da vida.
Não é um escritor forjado nas gavetas da literatura. Não constrói
a sua escrita na relação com outras escritas. Por isso os seus
versos têm a ver com a sua vida: a mãe, a amiga, a primeira
namorada, os camaradas, os sonhos, os objectivos , as causas, certas
datas. E porque é da sua vida, dos seus sonhos, das suas causas,
dos seus amores que ele decanta nos seus versos, esses versos são
únicos, porque não há duas vidas iguais.


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