domingo, 25 de março de 2018
POEMA DE AMOR: HUMANUS - A GRANDE VIAGEM.
A interrogação, a resposta, a dúvida, a verificação
que fatalmente conduz a nossa indagação.
Hoje, vou escrever-te um poema de amor
prometo ser arrebatador, ardente, apaixonado
deixar correr livremente tudo o que sinto e
pressinto em cada segundo de um tempo
tão agreste e contraditório.
Despir o preconceito, como se despe o luar
olhar o céu de cada sonho e o desejo de viver
mesmo que o resultado seja mil vezes pior
que a falsa e trágica acalmia que
as nossas vidas vivem, sem coragem para mudar.
“Tudo o que é humano, não me é estranho”
disse um dia o filósofo, sabia do que falava
tinha estudado a humanidade, as suas contradições
e evoluções, desde o comunismo da sociedade primitiva
até ao mundo do capitalismo avassalador e dominante
decadente na acção e nos resultados, pelo meio
ainda parámos no esclavagismo, no feudalismo
divididos em classes, sempre em classes que,
fizeram a grande roda girar e aqui chegar.
Vamos viajar, entrar numa passarola de Bartolomeu Gusmão
e por breves momentos revisitar o século XX,
século de tanta esperança, tanta luta, tanta alegria, tanto sonho
mas, também, tanta morte, tanta desilusão, tanta dor
onde o velho acabou por sufocar o novo e trazer
tanta dúvida, ao mesmo tempo que emprenha a
nova semente que um dia vai brotar
mais forte, viçosa, conquistando arranha-céus de esperança
enfim ser finalmente vitoriosa.
Amante do belo, nada melhor do que começar
na Belle Époque, ali no Moulin Rouge
assistindo fascinado e despreocupado
ao esvoaçar das penas, das saias multicolores
e das pernas das bailarinas – chamava-se Cancan,
a nova dança. Tudo parecia, que era beleza, novas invenções
e paz entre os povos, puro engano, as contradições
eram brutais e surgiriam em cascata.
5 de Outubro de 1910, vesti pela primeira vez a farda
em segredo, fui para a Rotunda e de baioneta em punho
lutei contra as tropas da monarquia falida e corrupta,
a ingerência das potências estrangeiras, o poder e a riqueza
da igreja, o direito a ser cidadão livre de um país livre,
a separação entre estado e igreja.
Em 28 de Julho de 1914, os grandes impérios
Alemão, Austro-Hungaro, Otomano, Russo, Inglês,
a 3ª Republica Francesa agudizando a luta politica
de expansão do seu domínio e da procura de novas
matérias primas entram em guerra, formando dois grandes blocos,
começa a I guerra mundial 1914-1918,
arrastando muitos outros países.
Eu, eivado de amor patriótico, parti para a Flandres
integrado no Corpo Expedicionário Português.
Ficámos atolhados na lama, no frio, na fome
e a batalha do Lys, acabou com os nossos sonhos.
Muitos milhares dos nossos ali tombaram para sempre,
juntando-se a muitos milhões, que alegremente tinham
marchado no início, alegres por irem para a guerra, vê tu,
guerra de rapina e por novos territórios.
No fim acabam em milhentas valas comuns.
Nos entre-tantos ainda tive tempo,
de olhar para o Império Otomano
e ver o massacre dos Arménios em 1915, mais de um
milhão foram mortos. Ao longo da história muitos outros
povos foram massacrados e quase destruídos,
numa verdadeira demência e loucura.
Em Outubro de 1917, estive no assalto ao Palácio de Inverno
em São Petersburgo, vínhamos dos campos, das fábricas,
das oficinas, dos quartéis e dos navios – éramos a força de aço
que varria a velha ordem.
Com grito enrouquecido cantávamos
“Bem unidos façamos desta luta final
uma terra sem amos – a internacional”
O novo amanhecer parecia querer brotar
traçando caminhos novos
banindo o mundo velho, os seus vícios e horrores.
Construindo em seu lugar uma sociedade mais justa,
mais humana, mais verdadeira, profundamente igualitária
na distribuição, nas oportunidades e na posse das coisas.
Sociedade do homem para o homem.
Em Outubro de 1929, estive no Eldorado,
na terra do tio Sam, tinha perdido o encanto de outrora
apontada no seu início, como símbolo máximo da democracia,
terra de liberdade, povoada por tanta mente brilhante
que tinha emigrado da Europa, nos séculos XVIII e XIX.
Agora era a grande recessão da bolsa e das acções,
verdadeira roleta do casino do capitalismo
que criava papeis (acções), que vendia ás pessoas, por um valor
e passados tempos fazia baixar o valor desses papéis,
lá se ia todo o dinheiro investido,
tudo negociado na bolsa de New York e
com o aval da Moody's, da Standard & Poor's e da Fitch Ratings
(sim, essas mesmo)
foi um drama brutal, falências, milhares de suicídios,
como os ianques já eram os principais financiadores
do mundo ocidental, a crise foi espalhando-se.
A década de trinta na Europa é de conflitos
e afirmação da luta dos operários
e outras camadas populares no seio dos países
a luta de classes estava no auge
na Alemanha, em França, Espanha, na Itália
tendo por pano de fundo a revolução soviética.
Em 1931 a Frente Popular ganha a eleições em Espanha,
semeando grande esperança em todo o povo.
No entanto, comunistas, trotskystas e anarquistas
nunca se entenderam, a unidade foi a utopia,
que tristemente só foi conseguida quando o pelotão
de fuzilamento os juntou para os assassinar.
A guerra Civil (1936-1939) advento e ensaio da II Guerra Mundial
dilacerou um povo, separou famílias, irmãos mataram irmãos.
De um lado as forças mais negras, do outro lado o povo dividido.
E cheguei à II Guerra Mundial,
a devastação total, a morte aos milhares,
selectiva, programada, cantada.
A raça superior, comandada por um ímpio
a fazer a guerra total aos descendentes de escravos ímpuros,
A suástica como brazão, o Mein Kampf como bíblia.
Os mesmos desejos imperiais dos tempos das tribos bárbaras,
criando um mundo deles, em provetas e campos de morte.
De Moscovo a Londres, de Paris a Tóquio suou o sinistro apito
das sirenes, avisando de mais um bombardeamento.
Do meu país a legião Viriato chefiada por Spínola foi lutar ao
lado da bota pessonhenta nazi, aliada ao Duce de Roma e ao imperador Hirohito.
Mil esforços, e o soldado soviético iça a bandeira da vitória no Reichstag.
Depois foi o conhecimento dos campos de concentração,
perto de 50, onde os mais famosos são:
Auschwitz, Breitenau, Belzec, Malchow, Treblinka …...
Mas do lado vencedor a realidade também é brutal,
Os americanos, querendo acabar de vez com a guerra
e querendo marcar uma posição de força para o futuro
arrasam Hiroshima e Nagasaki, com bombas nucleares
espalhando a morte por muitos anos a tudo que tinha vida.
A Europa em ruínas precisa de se erguer,
de se reconstruir, mais uma vez, o esforço dos povos é gigantesco,
do lado de lá do oceano chega o plano Marshall, os dólares
é o grande negócio da reconstrução.
Os vencedores encontram-se em Yalta
Stalin, Roosevelt e Churchill, a Europa e o mundo
ganha outro desenho no mapa dos países.
A leste, com a libertação dos opressores nazis,
nascem os chamados países de democracia popular.
Berlim é dividida em duas.
No país dos sovietes, o esforço é colossal
o grande atraso económico é ultrapassado
e o país está agora na dianteira.
Yuri Gagarin (1961) e a cadela Laika (1957)
são os primeiros seres vivos a orbitar a terra.
Mas, há os Gulags, as dissidências, as mortes
a repressão, a Tcheca dá lugar ao KGB,
as nacionalidades, as minorias, os conflitos
éticos, a burocracia, a nova classe emergente
vai pulverizar o futuro.
O pós guerra trás consigo as lutas de libertação
dos povos colonizados pelas potências ocidentais.
As mudanças de regimes percorrem o planeta,
parece chegada a hora da grande viragem.
A aurora de um tempo novo, com o advento
de relações mais justas entre os povos e as nações,
com a riqueza, os bens de consumo, a cultura,
a saúde a terem uma repartição mais igualitária.
Os massacres esses continuam.
Sukarno na Indonésia encabeça a lista.
Em África e na Ásia, nascem novos países,
fruto do grande movimento e das lutas desses povos.
Ao mundo dividido entre leste e oeste,
comunistas e capitalistas, aparece uma terceira via
os não alinhados, com uma mescla nas formas económicas.
No meu país é o fado negro da sorte,
um ditador rural e para sempre enclausurado,
no seminário onde estudou, só dá
fome, miséria, repressão nas ruas da nação.
Para fugir à fome ou para fugir à guerra,
vai-se a salto para fora do país.
Movimento que se há-de repetir no início da segunda década do século XXI
agora à luz do dia, centenas de milhar fazem a “vontade”
a um imitador barato do homem de Santa Comba Dão
que do alto da sua verborreia, os manda sair da sua zona de conforto.
E vem 1968 a Primavera de Praga,
onde os tanques do Kremlin esmagam a revolta popular.
E vem Maio em França, esse Maio de 68,
onde era proibido proibir,
onde operários e estudantes fazem tremer a ordem estabelecida,
A greve geral quase derrota De Gaulle.
E veio Abril, Abril novo pela força de um povo
que fez transbordar um rio, “numa ânsia colectiva de tudo fecundar”
foram quebradas algemas e prisões, os progressos foram tão profundos
que foram precisos quarenta longos anos para os erradicar.
A Perestroika, acabou com o que restava da experiência dos sovietes,
entretanto transformado em capitalismo de estado,
tão brutal, assassino e explorador como o velho capitalismo.
Alguns responsáveis das repúblicas passaram
a Kapos da nova máfia, enriquecendo da noite para o dia.
A União desmembrou-se, novos países velhos hábitos, usos e costumes.
Também os eslavos do sul, viram a sua união ruir
a guerra brutal, assassina em massa eclodiu ferozmente
de Belgrado a Dubrovnik de Krajina a Saraevo
nada escapou, as limpezas éticas, religiosas, politicas.
11 de Setembro, já tinha sido trágico para o Chile
para o seu presidente Allende, nesta América Latina
tão massacrada pelos americanos do norte,
novos colonizadores de todo o continente,
não lhe chegando o massacre que fizeram
aos indígenas da sua terra.
Mas há as Twin Towers e os aviões
usados como armas de destruição total
numa mistificação massiva da qual se suspeita cada vez mais.
Nova viragem na globalização global
Cada vez mais as riquezas são privadas,
e as despesas são públicas.
A grande ordem é mundial,
O petróleo é o centro do mundo,
por ele destroem-se países, decretam-se guerras,
muda-se o mapa das nações,
mata-se e pilha-se novamente,
fuga de milhões ao desespero, à fome
à guerra, a maldita sorte imposto pelo império,
a Europa ali tão perto e tão orgulhosamente cínica,
esquecidos os valores do passado,
nomeia um qualquer Erdogan, guarda-chaves do portão de entrada.
Civilizações antigas, berços da humanidade
são declaradas ímpias e incultas, pelos seus farsantes.
A religião, a grande trapaça do homem, é usada para criar
fanáticos alucinados, capazes de se auto destruírem à bomba,
arrastando com eles milhares de seres.
A ordem do caos está instalada
lucram os mesmos, muito poucos.
Muitos milhões, mais concretamente
99% da população mundial sofre com este estado de coisas.
A Europa, depois da união forçada está na desordem que
a nova Fraulein teimou em aplicar, para salvar todos os
Deutshe Bank desta vida e as mãos invisíveis que os manipulam.
A par disto, o desenvolvimento da ciência e da técnica
atinge patamares inimagináveis onde é preciso esconder esses
conhecimentos e desenvolvimentos da imensa maioria.
Tal como no início,
lembram-se “do vale onde havia pão, paz e mel”
as contradições existem e são elas que tudo fazem rolar
são elas que despertam os nossos sentidos,
nos levam ás perguntas, ás interrogações,
ás dúvidas e certezas, bem como à acção.
A luta entre o velho e o novo,
entre o ser e o não ser
entre o ficar e o ir
entre o querer e o não querer
viverá em cada um de nós
será ela que tudo irá mudar.
É este eterno movimento
do contentamento descontente
da inquietação desinquieta
dialéctica suprema da vida
Amor maior, que nos faz viver.
HM
03/09/2016
in LONGOS CAMINHOS
Matisse - A dança
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